Por Ênio Barcelo

Poderosos mentem no currículo porque dá certo e nós esquecemos. Confira os casos mais famosos.

Já perdi as contas de quantas vezes, nesses 24 anos de profissão, cobri o grande escândalo do poderoso nomeado para um cargo importante que mentia no currículo sobre a qualificação acadêmica.

Nunca entendi exatamente por que fazem, já que muitos nem ganham nada com as mentiras que contam.

O caso é que funciona e, além disso, nós esquecemos muito rapidamente.

Na iniciativa privada já se criou até uma expressão bonitinha para suavizar a desonestidade: turbinar o currículo.

O caso mais conhecido é o de Bel Pesce, que já tem um currículo impressionante: formada em Administração e Engenharia Elétrica no prestigioso MIT (Massachussets Institute of Technology) e trabalhou na Lemon Wallet, aplicativo inovador de finanças pessoais.

Ela inventou que também era formada em Ciência da Computação, Matemática, Economia e que era fundadora da empresa.

Quando desmascarada, foi um escândalo. Hoje, a imprensa chama o fato de “polêmica”.

O caso do ministro Carlos Decotelli é mais um entre os gravíssimos de um país que se impressiona com títulos mas não se abala com desonestidade.

Além da mentira dele, que ganha novas nuances a cada olhar mais detalhista, há algumas outras de que o país parece se recordar bem.

Os do atual governo, evidentemente, por serem recentes. O ministro Ricardo Salles não desmentia um mestrado em Yale e, quando questionado, disse ser erro da assessoria no currículo.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, colocou no currículo que tinha um doutorado-sanduíche em Harvard e depois explicou que era apenas a intenção de fazer.

O mestrado e doutorado de Dilma Rousseff

Entre os antigos, há apenas um que marcou a memória dos Brasileiros: Dilma Rousseff. A ex-presidente disse durante a campanha que tinha mestrado e doutorado em economia na Unicamp.

Não tinha. Cursou as duas coisas, mas não apresentou tese, então não tinha os títulos. A memória da maioria das pessoas provavelmente acaba aqui e isso mostra por que vale a pena fraudar currículos no Brasil.

Vamos a uma lista.

O jornalista André Eler, gerente da Bites, fez uma longa coletânea de casos passados no Twitter e, entre as personalidades que já deram “uma turbinada” no currículo provavelmente estão algumas que a maioria das pessoas jamais associaria à prática.

A briga mais demorada e mais famosa, no entanto, é a que envolveu Aloizio Mercadante e José Serra, iniciada nas eleições para o governo do Estado de São Paulo em 2006.

No debate na TV Gazeta, o petista afirmou com todas as letras que tinha doutorado na Unicamp, o que era mentira.

Mas a história fica mais apimentada ainda: o adversário havia sido professor dele na Unicamp e sabia que ele não tinha concluído o doutorado.

A vingança de Mercadante

Desmascarado pelo tucano, que venceu as eleições, Aloizio Mercadante sabia que vingança é um prato que se come frio.

Três anos depois, em 2009, quando o PSDB anunciou o nome de José Serra para concorrer à presidência da República, Mercadante o acusou falsamente de ter mentido no currículo.

Acusava o tucano de dizer ter se formado engenheiro na Escola Politécnica da USP, o que não ocorreu. José Serra nunca disse isso.

Não terminou o curso porque se exilou e, como foi feito em diversos casos semelhantes, a universidade no Chile reconheceu seu título e permitiu que fizesse mestrado em Economia.

Depois, ele fez outro mestrado na Universidade de Cornell e lá também obteve um PhD.

Somente no ano seguinte, 2010, Aloizio Mercadante conseguiria seu doutorado na Unicamp.

Doutorado de Crivella

O site de campanha de Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, informava que ele tinha um Doutorado em Engenharia Civil pela Universidade de Pretória, na África do Sul.

A informação que constava do site era: “Master Degree in Civil Engineer – University of Pretoria/South Africa. (Doutorado em Engenharia Civil – Universidade de Pretória/África do Sul)”.

A campanha reconheceu o erro de tradução: master para doutorado. Mas o fato é que Marcelo Crivella jamais estudou na Universidade de Pretória, só foi lá para revalidar o diploma brasileiro de engenheiro.

Paes também mentiu

O candidato de Eduardo Paes à prefeitura do Rio de Janeiro, Pedro Paulo, também tinha um currículo bem difícil de explicar.

Alegava ter mestrado em Economia Regional na Universidade Federal Fluminense e era mais um caso clássico da pessoa que cursou as aulas mas não apresentou a tese.

Ainda permanece um mistério o mestrado em Política Aplicada em La Fundación Internacional y para Iberoamérica de Administración y Políticas Públicas (FIIAPP).

Cruzando as datas do curso com as datas em que Pedro Paulo trabalhou no gabinete de Eduardo Paes em Brasília, ele teria concluído o mestrado em 6 meses.

Manoela D’ávila e o falso diploma de Harvard

Na campanha eleitoral de 2012 para a prefeitura de Porto Alegre, Manoela D’Ávila disse em seu programa eleitoral que estudou gestão pública na Universidade de Harvard.

Chegou até a apresentar uma foto na fachada da universidade, onde estava a também gaúcha Ana Amélia Lemos.

O jornalista Gilberto Simões Pires achou estranho e resolveu tirar a limpo.

Descobriu, portanto, que a candidata havia participado como ouvinte de um simpósio de três dias – domingo a terça-feira -sobre a inserção do Brasil no cenário internacional do século XXl.

Ela estava ao lado da senadora Ana Amélia Lemos e de outros 40 políticos convidados pela universidade norte-americana.

O curso não dava direito a diploma, todos estavam lá na condição de ouvintes.

Currículo oficial  na página do Itamaraty

Outro caso famoso é o do ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, que colocou no currículo oficial da página do Itamaraty.

Também costumava assinar artigos em jornais dizendo que tinha doutorado em ciência política pela London School of Economics.

Era a história clássica: cursou, mas não defendeu a tese. O curioso deste caso é que, nas palestras para os ingleses, ele sempre disse a verdade.

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Clã Sarney

Em 2009, foi a vez do clã Sarney usar uma pequena turbinada num currículo para tentar driblar um escândalo.

Era o início do crédito consignado e o neto de José Sarney, filho do ex-ministro do Meio Ambiente Sarney Filho foi acusado de favorecimento.

A empresa dele, que tinha só 29 anos de idade, tinha nas mãos um filet mignon do setor, os funcionários do Senado.

Na época, Sarney estava muito próximo do governo Lula.

José Adriano Sarney soltou uma nota dizendo que não precisava da influência do avô para operar nesse mercado, tinha mestrado na Sorbonne e era pós-graduado em Harvard. Não era.

Até Mansueto

Tem os que não mentem sobre não concluir, mas fizeram faculdade no exterior com dinheiro público.

Como é o caso do ex-secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, que acaba de deixar o governo Bolsonaro.

Ele ganhou uma bolsa de estudos para fazer doutorado no Massachussets Institute of Technology, MIT, entre 1997 e 2001.

Não apresentou tese e, conforme o termo de compromisso da Capes, quando isso acontece a pessoa tem de devolver o dinheiro.

Ele não devolveu, foi cobrado judicialmente e, em junho do ano passado, o Tribunal de Contas da União, o livrou da dívida de R$ 850 mil.

De políticos a ministros

Mas não pensem que só os políticos dão uma “escorregada” no currículo. Há 3 casos bem famosos no Supremo Tribunal Federal.

Quando foi indicada para uma vaga na corte, a ministra Cármen Lúcia ostentava em seu currículo o título de Doutora em Direito do Estado pela USP. Cursou os créditos em 1982 e 1983, mas não concluiu.

Depois, desmentiu várias vezes que tivesse doutorado. O ministro Cezar Peluso também tinha no currículo um doutorado em Direito pela USP na mesma situação: cursou e não defendeu tese.

Moraes e o erro da secretária

O mais inacreditável é o pós-doutorado na USP que o ministro Alexandre de Moraes tinha no currículo quando indicado à vaga no STF. O ministro culpou a secretária.

Ele já era professor na USP e não mudaria nada para ele ter esse título, pós-doutorado não é um grau acadêmico como mestrado e doutorado, é qualquer coisa que se faça após o doutorado.

 

Não há, neste país, nada mais democrático que a pilantragem, talvez nem a democracia.

Rol das falsianes de currículos

No rol, há todo tipo de gente, de todas as áreas, todas ideologias, todas as idades. E não pense que, entre os que têm o diploma, está tudo certo.

Vez ou outra vemos por aí uma coletânea de trabalhos acadêmicos que aparentemente não têm nenhum sentido ou utilidade. Algumas vezes, duvidamos até que sejam piadas.

A existência de muitas dessas teses atende a uma necessidade que a maioria dos brasileiros desconhece: a avaliação da universidade.

“Desde que as faculdades passaram a ser avaliadas pelo MEC por produção acadêmica, incluindo número de dissertações e teses, o volume de trabalhos apresentados cresceu”, diz a especialista em Educação Financeira Cássia D’Aquino Filocre.

“Como inevitável, nem sempre a qualidade acompanhou a curva ascendente. Donde os plágios e a vista grossa institucional.”, conclui a especialista.

Faço questão de compartilhar com vocês três diferentes experiências que ela teve em bancas de mestrado com trabalhos que jamais deveriam dar um título a seus autores, mas acabaram dando.

Todos os casos são de universidades de ponta, em que ela era parte da banca examinadora.

1. O truque do super famoso que topa ser parte da banca

Gente que juntou mal traçadas linhas ao pagamento da passagem, do próprio bolso, para que um medalhão “top de linha” aceitasse ser parte da banca de doutorado. Inclusive hospedou o turista em casa.

O constrangimento que a presença do estrelado criou para os demais membros da banca resultou na aprovação de um dos trabalhos mais toscos que o mundo acadêmico já viu.

2. O plagiador que levou a família

Acompanhei também a aprovação de um mestrando, a despeito do visível mal estar da banca. Nesse caso o orientando se valeu de informações importantes e originais de um artigo de um dos examinadores e, sem mencionar a fonte, juntou à dissertação como se fossem de própria lavra.

Quase como se fosse o responsável pela situação, constrangido até os ossos, o professor anunciou o plágio.

Era claro que tinha vindo à defesa disposto a reprovar. Mas o aluno, safo que só um estelionatário, distribuiu na sala amigos e parentes, fazendo o professor concluir sua admoestação com “eu não esperava que tantos familiares fossem estar presentes. Isso é bastante incomum”.

Mais um caso de “aprovado por falta de graça”. O aluno nem piscou de vergonha.

3. A plagiadora e a operação salvamento

Por fim, eu mesma me vi envolvida na situação de estar na banca de um trabalho que, para meu grande espanto, me plagiava descaradamente, páginas ao horizonte.

Quando tratei disso na avaliação, os demais professores correram a contornar a situação (“certamente houve algum mal entendido”; “não é caso para reprovação”, “não se preocupe, a aluna incluirá as menções devidas”, etc).

Com a maior cara de pau a aluna assistiu a operação de salvamento. Não disse uma palavra sobre o acontecido na hora nem nunca depois.

Primeiro curso de MBA do Brasil

Carlos Decotelli criou, junto com Paulo Guedes, o primeiro curso de MBA do Brasil, no Ibmec. Os MBAs das universidades de ponta no exterior têm 2 anos de duração em período integral.

Aqui, de acordo com a Anamba, Associação Nacional de MBA, há 2 padrões. O brasileiro tem 360 horas, pode ser concluído só aos sábados em um ano.

O “padrão internacional” da Anamba tem 480 horas, dá para concluir em um ano e meio só aos sábados. Na nossa sociedade, títulos e autoengano são valores importantíssimos para muitos.”

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bADIA JABOUR JUNQUEIRA
bADIA JABOUR JUNQUEIRA
4 meses atrás

GOSTARIA DE DESMASCARAR OS FALSOS CURRICULOS E DAR NOMES

bADIA JABOUR JUNQUEIRA
bADIA JABOUR JUNQUEIRA
4 meses atrás

GOSTARIA QUE PUBLICASSE OS FALSOS CURRICULOS E NOMES

Simone Leite
Editor
4 meses atrás

Olá. A matéria fala os nomes e as áreas. Não tivemos acesso aos currículos.

Jean Claude
4 meses atrás

Isso se chama PREGUIÇA. Porque dá trabalho ler mais de um autor sobre o tema, buscar outras fontes, e escrever com suas próprias palavras fazendo as devidas referências ou a citação obrigatória, quando literal. Aqui vale a cultura do menor esforço, de copy e paste para encher o miolo e concluir com “achismos”. E mesmo com todos os cuidados, você ainda agradece a banca que destrói (no bom sentido), a sua dissertação ou tese.