“Figura decorativa” é a primeira-dama. E olhe lá. Está aí a Michelle Obama pra derrubar nossas convicções. Se você é daqueles eleitores que nunca olha o “vice” do seu candidato, você precisa mudar. E já. Vice-presidentes, vice-governadores e vice-prefeitos no Brasil definitivamente não têm vocação para o subterrâneo.

Se você era dilmista e levou susto quando viu que Michel Temer (MDB) seria presidente, faltou foi atenção: desde que deixamos de ser súditos de um imperador, em 1889, oito vices assumiram o poder. Em quatro casos, morreu o titular; em dois outros, renúncia; nos demais, impeachment, assim, pura e simplesmente. Ou seja, vices que chegam ao poder no Brasil cheiram mais à regra que à exceção.

Se Temer estava longe de ser o mister popularidade, o Brasil já teve “vice-simpatia” – como Itamar Franco, que conseguiu debelar a inflação e, mais do que isso, convenceu a Volkswagen a voltar a fabricar o Fusca…  O Brasil já teve ”vice-problema”, também. A renúncia de Jânio Quadros nos lançou na crise e a posse de João Goulart só veio ante a movimentos amplos de quartelada e a mobilização constitucionalista e popular que entrou para a História como “Legalidade”.

Quem está atento aos livros e quer se lançar na política sabe o quanto a escolha do vice é importante. E os políticos que constroem “chapas majoritárias” sabem o quanto a equação é difícil. O vice tem de ter conexão de ideias com o candidato. O vice tem de “aceitar“ a condição de vice: nenhum candidato gosta de um substituto potencial cheio de iniciativa. Por último, o vice tem de agregar votos para a chapa – esse terceiro ponto é importante, mas é bastante relativo.

O governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) recém virou a primeira folha do calendário e o vice-presidente, o general Antônio Hamilton Mourão (PRTB), já causa embrulhos em alguns estômagos do Palácio do Planalto. Mourão não era primeira opção de Bolsonaro. Tentou Janaina Paschoal, não deu. Tentou Magno Malta, água. Mourão reforçaria os laços com os militares e arrastaria consigo a credibilidade das Forças Armadas, uma das instituições mais prestigiadas do país. Alguém teria uma ideia melhor?

Assim foi. Que mal haveria? Mourão não parecia ter aspirações de poder na época – e nem estou dizendo que tem hoje ou que terá amanhã. Mas e Temer as tinha em 2010? E em 2014? E Itamar Franco? Um ilustre desconhecido mais propenso à aposentadoria.

O caso é que nessa pequena amostragem Mourão já vem exibindo proatividade. Contraria o próprio presidente com desenvoltura naquilo que não concorda. E enquanto Bolsonaro segue uma agenda de confrontamento constante, adequada ao então candidato mas de gosto duvidoso para um presidente da República, Mourão parece provocativamente ponderado. Em um governo que já se notabiliza pelos recuos, Mourão convida ao bom senso e nem de longe parece preocupado em sofrer desautorizações do titular – que, aliás, ainda não vieram.

Mourão parece saber claramente que a legitimidade de sua política não vem dos votos de milhões – esses são de Bolsonaro. Mas o general sabe, e melhor ainda, que o seu capital não é pequeno e brota de dentro dos quartéis.

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Mas o que isso quer dizer? O ingresso de Mourão na chapa de Bolsonaro trouxe duas mensagens simbólicas. Em uma, que o Exército (e a força de seu prestígio) tinham abertamente candidato – fato inédito no Brasil desde 1985. A outra, que a condição para que Bolsonaro usufruísse desse capital era a própria figura de Mourão: afinal, sabidamente a ficha do agora presidente como militar não era exatamente “exemplar”.

Possivelmente Mourão faz o que faz não porque pense em destituir o presidente ou algo que o valha, como ventilam as teorias da conspiração de WhatsApp. Possivelmente Mourão esteja preocupado em que tudo dê certo – afinal um eventual fracasso de Bolsonaro seria, igualmente, um fracasso das Forças Armadas. Possivelmente, ainda, Mourão ocupe um papel transitório e se proponha agora a ser o elemento de credibilidade num momento em que o filho do presidente, senador Flavio Bolsonaro, está sendo acossado por uma investigação de dimensões imprevisíveis.

Pelo sim, pelo não, a História recomenda atenção com os vices. Outra amostra disso vem aqui do Distrito Federal. Quem não lembra do vice-governador Renato Santana (PSD) indo à tribuna da Câmara dos Deputados para acusar o então governador Rodrigo Rollemberg (PSB) de “racismo” e “elitismo”, tudo isso menos de 6 meses antes da eleição em que Rollemberg tentaria novo mandato?

Numa ironia da democracia, quem escolhe o vice é o candidato. A conhecida fábula em que o sapo dá carona ao escorpião parece bem ilustrativa: o sapo precisa sempre saber quem de fato é o seu parceiro na travessia.

*Adriano Barcelos é jornalista graduado na UFRGS, foi repórter e editor em jornais como Zero Hora, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, além de chefe de comunicação em assessorias de Brasília e Rio de Janeiro.

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Odir Ribeiro

Odir Ribeiro é jornalista, blogueiro e multimídia que desde 2011 cobre os bastidores da política do DF.