Estamos na era dos políticos conectados. O mais importante do Ocidente, o presidente americano Donald Trump, é um usuário contumaz do Twitter. Lá, ele costuma dar em primeira mão informações sobre o governo. No Brasil, Jair Bolsonaro ensaia o mesmo movimento. Mas é importante lembrar: a internet está muito mais propensa a “emparedar” os políticos do que servir a eles. E eles? Já se deram conta?

Não importa o que façam, ou em que veículo se manifestem, a avaliação pública das autoridades sempre será um rio que corre em favor da sociedade. As redes são “sociais”, já diz o nome, não são políticas. Uma amostra disso está ocorrendo em Brasília, varrida por memes e críticas. A quem é de fora, ou anda meio aéreo nesses dias estranhos de sol em pleno verão do Cerrado, explico: o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (PMDB) cometeu uma frase no mínimo infeliz. Ele disse que a orla do Lago Paranoá não será urbanizada – e foi além, criticando a circulação de pessoas próximo ao espelho d’água.

A urbanização do Lago Paranoá nasceu de uma decisão da Justiça. Diferente do idealizado por JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, as margens do lago foram sendo “privatizadas” ao longo do tempo. Brotaram cerquinhas, deques exclusivos, píers fechados etc, etc. Não preciso nem dizer que a beira do lago é uma das regiões mais valorizadas de Brasília. Pois bem, a Justiça resolveu desobstruir e derrubar as estruturas erguidas num raio de 30 metros da água. O caso é que o ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB) não apenas cumpriu a decisão como se tornou entusiasta da “entrega da orla aos brasilienses”, fazendo desse um de seus maiores trunfos políticos na campanha de ’18, quando foi derrotado por Ibaneis.

Frase duvidosa à parte, Ibaneis fez o que 99% dos políticos fazem: desdenhou o legado do antecessor e apontou uma guinada de 180º no rumo do GDF no que diz respeito ao Lago Paranoá. O problema é que o governador foi analógico, e o eleitor é 3.0 – extremamente digital e antenado. O que se vê nas timelines e WhatsApps de Brasília é uma torrente sem fim de críticas a Ibaneis, recheadas de comentários negativos e sarcásticos e memes da moda – como o do jovem vestido com bermudas e camisa polo enquanto faz perguntas de forma tão educada quanto despropositada do quilate dessa: “Com licença, os senhores podem banhar em outro lugar?”

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Charge/Metrópoles

O que o político precisa compreender é que o eleitor 3.0 é qualquer coisa, menos passivo. Em outros tempos, ficaria subentendido que a mudança no governo implicaria rejeitar tudo que foi feito antes. Sem as redes sociais, provavelmente Ibaneis diria o que disse e seria essa a última palavra. Afinal, um simplório pensaria: “se quisessem manter o Lago como estava, bastava ter reeleito o adversário”. Mas os tempos são outros. Com ironia, bom humor e às vezes uma pitada de pimenta, o eleitor 3.0 mandou o recado que não foi para reelitizar o entorno do Lago, ou para apartá-lo outra vez do povo, que o novo governo foi eleito.

O governador, ao que parece, está repensando suas ideias sobre o Paranoá. Mais importante que isso, do ponto de vista da imagem dos políticos, é importante ele ter em mente que não existe mais carta branca. O eleitor 3.0 está a postos para cobrar a fatura.

*Adriano Barcelos é jornalista graduado na UFRGS, foi repórter e editor em jornais como Zero Hora, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, além de chefe de comunicação em assessorias de Brasília e Rio de Janeiro.

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Elton Santos

Elton Santos é formado em jornalismo e atua na área política do Distrito Federal há oito anos, sempre buscando os bastidores do poder. Já passou por redações e assessorias na capital federal
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