Ao autorizar a prisão do secretário de Saúde do Distrito Federal, Francisco Araújo, detido nesta terça-feira (25), o desembargador Humberto Adjuto Ulhôa afirmou haver “sérios e robustos indícios” de que ele “atuou no comando e no controle de uma organização criminosa”, ao direcionar a compra de testes para detecção do novo coronavírus.

O secretário foi preso preventivamente – por tempo indeterminado – na segunda fase da operação Falso Negativo. Além dele, outras cinco autoridades do alto escalão da Secretaria de Saúde foram detidas:

  1. Ricardo Tavares Mendes – ex-secretário adjunto de Assistência à Saúde do DF
  2. Eduardo Hage Carmo – subsecretário de Vigilância à Saúde do DF
  3. Eduardo Seara Machado Pojo do Rego – secretário adjunto de Gestão em Saúde do DF
  4. Jorge Antônio Chamon Júnior – diretor do Laboratório Central do DF
  5. Ramon Santana Lopes Azevedo – assessor especial da Secretaria de Saúde do DF

Há também um mandado de prisão contra o subsecretário de Administração Geral da Secretaria de Saúde, Iohan Andrade Struck. Ele não foi encontrado pelos investigadores e, até a última atualização da matéria, era considerado foragido.

Após a operação, o governador Ibaneis Rocha (MDB) informou que todos serão afastados, mas disse que os envolvidos “estão sendo indevidamente acusados”. Já a Secretaria de Saúde afirmou que sempre colaborou com as investigações.

Decisão do desembargador

Ao autorizar as prisões, o desembargador atendeu a um pedido do Ministério Público do DF, que apura o caso por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). De acordo com o órgão, a medida foi necessária por “receio de reiteração delituosa” e “risco à ordem pública”.

De acordo com o magistrado, os indícios apresentados pelo MP apontam para um “avanço da criminalidade”, com “preocupante eficiência” e que “exige do Estado resposta corajosa, concreta e efetiva”.

“É inconcebível que agentes públicos, mesmo diante do que ocorre hoje no Brasil em termos de apurações de crimes de corrupção entre outros, não se furtam de, descaradamente, usarem de seus cargos para a prática de crimes como os noticiados nesta representação”, citou o magistrado.

sequencia carros secretario.01 frame 681 - "Secretário atuou no comando de uma organização criminosa"

Contratos suspeitos

O Ministério Público apura suspeitas de fraudes em duas dispensas de licitação para compra de kits para exame de detecção do novo coronavírus. Em ambas, o MP identificou superfaturamento. Ao todo, o prejuízo estimado é de R$ 18 milhões.

De acordo com o MP, Francisco Araújo “é quem decide qual empresa será contratada” para as aquisições dos testes para Covid-19 e “sua atuação é direcionada para lesar os cofres públicos e auferir vantagens pessoais”.

Um dos contratos questionados foi fechado com uma empresa atacadista e importadora de brinquedos, Luna Park, que fica em Santos, no estado de São Paulo. Segundo o MP, a fornecedora “foi contratada embora tenha oferecido o maior valor por unidade de teste na dispensa de licitação, a sua documentação tenha sido oferecida fora do prazo e o parecer inicial relativo à sua proposta tenha sido pela rejeição”.

A atacadista de brinquedos foi escolhida para fornecer 90 mil testes, ao custo de R$ 16,2 milhões. O Ministério Público afirma que o processo de contratação durou apenas dois dias e que a empresa chegou a indicar itens que nem estavam previstos, como teste para detecção da Hepatite C.

Os documentos também não teriam aferição técnica da qualidade dos exames, nem a marca do produto a ser adquirido.

O outro contrato analisado trata de aquisição de 100 mil testes rápidos para utilização nos postos drive-thru, firmado com a empresa Biomega por R$ 19 milhões. De acordo com as investigações, o secretário de Saúde “mantinha tratativas extraoficiais com o setor privado para o fornecimento dos serviços”.

A empresa Biomega teria, inclusive, decidido previamente que seriam contratados 15 pontos de drive-thru para o DF e conseguido ampliação de 90 mil testes previstos inicialmente para 100 mil, segundo os promotores.

Os crimes em investigação são de fraude à licitação, lavagem de dinheiro, organização criminosa, além da prática de corrupção ativa e passiva. O caso ainda pode ser caracterizado como cartel.

Quem é quem no grupo

Os investigadores chegaram até as suspeitas de “conluio” entre a pasta e as vencedoras das dispensas de licitação após analisar conversas entre o secretário de Saúde e equipe, em aplicativos de mensagens, após apreensão de celulares na primeira fase da operação.

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Para o Ministério Público, a investigação trata da “maior organização criminosa entranhada no atual governo do Distrito Federal”, que “se alimenta da morte de inúmeras vítimas” da Covid-19. O órgão afirma que cada integrante possui um papel no grupo:

Francisco Araújo – secretário de Saúde do DF

Apontado como quem “controla e comanda” a organização criminosa. Seria “quem decide qual empresa será contratada; os prazos exíguos para apresentação de propostas; e até mesmo o quantitativo de testes a serem adquiridos”.

Ricardo Tavares Mendes – ex-secretário adjunto de Assistência à Saúde do DF

Apontado pelo Ministério Público como “membro fundamental e segundo na hierarquia da célula criminosa dos servidores públicos”. Seria o responsável por dar “ares de legalidade” ao processo.

 

Eduardo Seara Machado Pojo do Rego – secretário adjunto de Gestão em Saúde do DF

Citado na investigação como “terceiro membro na sucessão organizacional”, com “a tarefa de lidar diretamente com as empresas fornecedoras de testes e informá-las do que é preciso”.

 

Eduardo Hage Carmo – subsecretário de Vigilância à Saúde do DF

No papel de analisar as contratações, como autoridade máxima da Vigilância em Saúde, é suspeito de dar “falsa validade aos projetos básicos” com objetivo de “afastar eventuais alegações de invalidade ou conluio na edição e lançamento de tais documentos”.

Jorge Antônio Chamon Júnior – diretor do Laboratório Central do DF

De acordo com promotores, Jorge tinha como principal função “orientar tecnicamente o grupo” sobre “como devem ser lançados alguns itens no edital para ‘evitar problemas'”. Além disso, teria a “tarefa de chancelar os projetos básicos e justificar, falsamente, os quantitativos que estão sendo comprados”, já que os montantes estariam sendo definidos pelas empresas.

Ramon Santana Lopes Azevedo – assessor especial da Secretaria de Saúde do DF

Seria quem “articula com as empresas privadas buscando boas contratações que favoreçam o grupo e com os demais integrantes do grupo em nome do Secretário”.

Iohan Andrade Struck – subsecretário de Administração Geral da Secretaria de Saúde do DF

Apontado como quem “controla o que vai para a publicação e os ofícios com as informações que as empresas devem apresentar, além de montar os processos com os documentos necessários para que o procedimento tenha aparência de licitude”.

O que diz o governo?

Após a decisão, o governador Ibaneis Rocha chamou a ação de “desnecessária” e disse que a pasta manteve todos os processos transparentes. Veja abaixo:

“O Governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, no momento em que declara sua irrestrita confiança no Poder Judiciário local, vem a público lamentar a desnecessária operação ocorrida nesta manhã e que culminou na prisão preventiva da cúpula da Secretaria de Saúde.

O Secretário de Saúde, Francisco Araújo Filho, e toda sua equipe sempre estiveram à disposição das autoridades para esclarecer quaisquer fatos, mantendo abertos todos os processos em curso na SES, inclusive com acompanhamento on-line do Ministério Público, pelo Sistema Eletrônico de Informações (SEI), comprovando a inexistência dos crimes a que estão sendo indevidamente acusados.

Neste momento não resta outra atitude de minha parte a não ser afastar preventivamente os acusados, com o único intuito de não paralisar os importantes serviços prestados à sociedade do Distrito Federal pela Secretaria de Saúde, em especial neste momento de pandemia.

Aguardo rápida apuração e o esclarecimento dos fatos para que pessoas inocentes não tenham seus nomes indelevelmente manchados”

Procurada pela reportagem nesta manhã, a secretaria de Saúde informou que sempre colaborou com as investigações.

Veja íntegra abaixo:

“A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES) informa que sempre esteve à disposição do Ministério Público, colaborando com as investigações e fornecendo todos os documentos necessários à devida apuração dos fatos relativos à operação Falso Negativo, desde a sua fase inicial.

A SES não só disponibiliza as informações solicitadas como franquia o acesso online dos membros do MP a todos os processos de compras e contratos da pasta, através do Sistema Eletrônico de Informações (SEI) e vem realizando reuniões semanais com os membros desse órgão de controle para esclarecer dúvidas, acatar recomendações e aprimorar os mecanismos de transparência dos atos e ações da pasta junto à sociedade.”

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Simone Leite

Simone Leite atuou como repórter, produtora de TV, assessora de imprensa e editora de notícias. Há dez anos, atua diretamente na política, área que se diz apaixonada!