Por Simone Leite

A eleição de Joe Biden era mais do que desejada pela opinião pública (imprensa, “formadores de opinião” e adversários de Bolsonaro). Assim, a sua confirmação destapou dois sentimentos: a de que a democracia liberal venceu e de que Jair Bolsonaro e o Brasil de Bolsonaro irão sofrer com Biden na presidência americana. Curiosamente, o desejo de prejudicar Bolsonaro é maior do que defender os interesses nacionais na relação.

Circunstâncias históricas

As relações entre o Brasil e os Estados Unidos seguem um continuum e uma lógica pouco percebida pela imprensa brasileira e formadores de opinião. Pouco sabem sobre, por exemplo, as relações de segurança no combate ao tráfico de drogas. Ou ainda não se importam com o fato de que o Brasil é um dos maiores clientes do Tesouro norte-americano. Tampouco dão importância ao fato de que os sistemas financeiros de ambos os países tem ligações estáveis e antigas.

Conjuntura

Evidentemente que as relações pessoais entre Jair Bolsonaro e Donald Trump criaram um ambiente de maior proximidade presidencial. Assim como era a relação entre Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton e Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush. Porém, as relações pessoais apenas mudam perifericamente a agenda de relacionamento dos países. Os Estados Unidos, cujo grau de institucionalidade é maior do que o do Brasil, trata das relações dentro de marcos que são historicamente discutidos. Tais marcos se expressam em questão diplomáticas, comerciais, segurança, terrorismo, finanças, ambientais, entre outras.

As relações pessoais entre Joe Biden e Jair Bolsonaro poderão ser frias por um tempo. Mas as agendas continuarão a existir e a pautar o relacionamento entre os dois países. Realidade que interessa tanto ao mercado quanto às corporações que investem e exportam para ambos os países. O bom relacionamento entre os Estados Unidos e o Brasil é vital para os interesses da Amazon, Google, Apple, General Mortors, Ford, Raízen, Petrobras, JBS, Marfrig, Bradesco, Itaú, Citi, BTG, BofA, Cisco, IBM e outros tantos players.

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O que vem por aí

Teremos um período estranho onde, para fragilizar internamente Jair Bolsonaro, as diferenças entre Biden e ele serão apontados como risco para o Brasil. Por exemplo, haverá um desejo patente de que Biden ataque o Brasil pela questão ambiental. E que, em torno da questão ambiental, surja a narrativa de que o Brasil virou um pária no novo mundo que emerge com Biden. Porém, a questão é muito mais complexa.

Joe Biden pode até se manifestar em relação a Bolsonaro dando um “troco” às inconveniências do presidente brasileiro. Mas, pela sua trajetória e experiência, sabe que o Brasil é grande demais para ser antagonizado. Até mesmo pelo fato de que o Brasil poderia – hipoteticamente – pender politicamente para a esfera chinesa e enfraquecer, ainda, mais, o papel internacional dos Estados Unidos.

Existem vários temas que são importantes para os Estados Unidos e que envolvem o Brasil como, por exemplo, China, 5G e Venezuela.

Assim, todos os players que mencionados dentro da esfera de relações comerciais e de investimento dos dois países são poderosos para mandar sinais de cautela ao novo governo em relação ao Brasil. Destacando que devemos dar tempo ao tempo e esperar o ano que vem com suas agendas.

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Simone Leite

Simone Leite atuou como repórter, produtora de TV, assessora de imprensa e editora de notícias. Há dez anos, atua diretamente na política, área que se diz apaixonada!