O Carnaval voltou a cruzar a avenida ao lado da política, e não de forma discreta. A recente homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um desfile de escola de samba trouxe à tona um episódio que muitos ainda lembram. Em 2006, o próprio Partido dos Trabalhadores recorreu à Justiça para contestar um enredo da Leandro de Itaquera que mencionava o então candidato ao governo de São Paulo, José Serra.
Na época, o argumento era direto. Havia o entendimento de que poderia existir promoção eleitoral indevida em um período sensível do calendário político. O caso abriu um debate importante sobre propaganda antecipada e sobre os limites entre manifestação artística e campanha. Agora, diante do cenário atual, a comparação soa inevitável e, para muitos, difícil de ignorar.
Presença presidencial em evidência
No desfile mais recente, Lula acompanhou a homenagem em um espaço de destaque, no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro. Ao seu lado estavam a primeira-dama Janja da Silva, o prefeito Eduardo Paes, o vice-presidente Geraldo Alckmin e ministros como Alexandre Padilha, Gleisi Hoffmann, Anielle Franco, Margareth Menezes e Alexandre Silveira.
Em determinado momento, o presidente deixou o camarote e desceu até a área de concentração para cumprimentar pessoalmente cada escola antes da entrada na avenida. Aliados classificaram o gesto como demonstração de prestígio ao Carnaval e às agremiações. Ainda assim, é impossível ignorar o simbolismo político da cena. Quando a principal autoridade do país ocupa o centro do espetáculo, a fronteira entre celebração cultural e projeção institucional se torna, no mínimo, nebulosa.
O contraste com 2006
A lembrança do episódio envolvendo José Serra voltou a circular nas redes sociais. Em 2006, o PT sustentava que associar o nome de um candidato a um desfile de grande visibilidade poderia comprometer o equilíbrio da disputa eleitoral. Hoje, o discurso da liberdade artística aparece com muito mais ênfase.
As fofocas de Carnaval que estão deixando Brasília em pânico
Especialistas em Direito Eleitoral lembram que a caracterização de propaganda depende de fatores como período oficial de campanha, pedido explícito de voto e financiamento eleitoral. Fora do calendário, manifestações culturais tendem a ser protegidas pela liberdade de expressão. Ainda assim, a indignação de parte do público não nasce do vazio. Ela surge da percepção de que critérios parecem mudar conforme o personagem em evidência.
Carnaval, cultura e coerência
O Carnaval brasileiro sempre dialogou com política, identidade nacional e crítica social. Homenagens a líderes e figuras públicas fazem parte da história dos enredos. O que provoca desconforto não é a presença da política na avenida, mas a aparente seletividade na forma como essa presença é questionada ou defendida.
O histórico de 2006 mostra que partidos já recorreram à Justiça quando entenderam haver benefício eleitoral a adversários. Hoje, a presença institucional do presidente na Sapucaí reforça que o Carnaval também pode assumir dimensão política explícita.
Entre memória e atualidade, o debate permanece aberto. Onde termina a manifestação artística e começa a estratégia eleitoral? A pergunta ecoa mais alto quando a coerência parece desfilar fora do ritmo.