De Brasília a São Paulo: um contraponto honesto às críticas à Capital Federal

Um debate intenso tomou conta das redes sociais no fim de 2025. De um lado, o jornalista paulista Sam Pancher, do Metrópoles, que publicou no X um relato crítico sobre Brasília após passar boa parte do ano na capital federal. Do outro, o brasiliense Eduardo Pedrosa, hoje morador de São Paulo, que resolveu fazer o caminho inverso: olhar para Brasília a partir da vivência paulista — e devolver a crítica com perspectiva.

O resultado foi um texto que viralizou, gerou debates acalorados e expôs algo maior do que uma disputa regional: as contradições do poder, da desigualdade e da corrupção no Brasil.

O olhar de um paulista sobre Brasília

No post que gerou a discussão, Sam Pancher descreveu Brasília como um “quadrado no Centro-Oeste”, distante da realidade brasileira. Criticou o afastamento das populações mais pobres, a tomada de decisões políticas em cafés e almoços informais, a lentidão burocrática e o que chamou de machismo estrutural — especialmente no trato com mulheres jornalistas.

Pancher também apontou o descompasso entre as pautas debatidas em Brasília e os problemas concretos da população, como as dificuldades enfrentadas por aposentados do INSS. O relato, amplamente compartilhado, refletiu o olhar de quem vem de uma metrópole marcada pela velocidade, pelo pragmatismo e pela lógica da eficiência.

https://x.com/_eduardopedrosa/status/2006315157987717349?s=46&t=gfaFCXc-Bc0082IjVdaVbA

O contraponto: quem viveu Brasília e hoje mora em São Paulo

Eduardo Pedrosa iniciou sua resposta reconhecendo que há verdades no relato de Pancher, mas alertou para o risco da generalização. “Sou filho de Brasília e moro hoje em São Paulo. Justamente por isso acho honesto colocar algumas coisas em perspectiva”, escreveu.

Segundo ele, o afastamento dos pobres não é exclusividade da capital federal. Em São Paulo, a exclusão seria ainda mais sofisticada: muros altos, condomínios blindados, elevadores separados e periferias empurradas para fora do campo de visão da cidade formal. “Aqui, o pobre não está apenas distante. Ele é invisível”, pontuou.

Poder, cafés e decisões informais

Sobre a crítica às decisões tomadas em cafés e almoços, Pedrosa ironizou: se isso acontece em Brasília, em São Paulo isso é regra. Restaurantes caros, clubes exclusivos e ambientes fechados seriam o verdadeiro centro das decisões econômicas do país.

“Brasília entrega. São Paulo embala”, escreveu. Para ele, enquanto a capital federal ainda permite algum contato direto entre quem decide e quem executa, em São Paulo o poder costuma estar encapsulado em camadas de intermediação, rentismo e distância social.

Machismo: problema cultural ou estrutural do poder?

No debate sobre machismo, Pedrosa ampliou o foco. Para ele, o problema não é Brasília, mas o poder em si — exercido, muitas vezes, por homens que nem sequer são da cidade.

Ele elogiou o que chamou de uma relação mais respeitosa dos brasilienses com as mulheres e afirmou ter se chocado com práticas comuns em São Paulo, como grupos masculinos isolados em ambientes corporativos e expressões que simbolizam hierarquia de gênero. “Isso não é pauta identitária. É atraso”, escreveu.

Burocracia e dinheiro: quem lucra com o sistema?

Um dos pontos mais contundentes do texto de Pedrosa está na análise da burocracia. Para ele, Brasília não é a causa do problema, mas o palco onde um modelo é executado. O lucro, segundo sua avaliação, está concentrado fora dali.

“Muitos bilionários paulistas enriqueceram com regras confusas, lentas, cartoriais e cheias de intermediários”, afirmou. Em sua leitura, São Paulo monetiza o que Brasília operacionaliza.

Corrupção pública x corrupção privada

Ao tratar da corrupção, Pedrosa fez uma distinção incômoda. Ele reconhece falhas no setor público, mas afirma que ainda encontra, em Brasília, servidores comprometidos com o interesse coletivo. Já em São Paulo, descreve uma corrupção privada institucionalizada.

“É praticamente impossível fazer negócios sem pagar comissão”, escreveu, afirmando que, em muitos casos, a corrupção deixou de ser exceção para se tornar método.

Nenhuma cidade é inocente

Sem idealizar Brasília, Pedrosa encerra sua reflexão cobrando que São Paulo abandone a posição de “espectadora moral” dos problemas nacionais. Ele lembra, inclusive, a expansão da violência organizada, como a atuação do PCC, como prova de que os problemas do país são interligados e não respeitam fronteiras regionais.

Um debate que o Brasil precisa enfrentar

O embate entre Sam Pancher e Eduardo Pedrosa vai além de Brasília contra São Paulo. Ele expõe as engrenagens do poder no Brasil, onde decisões políticas, interesses econômicos e narrativas midiáticas se cruzam constantemente.

Às vésperas de 2026, ano decisivo para o país, o debate serve como alerta: nenhuma cidade é imune a críticas — e nenhuma pode se eximir da responsabilidade coletiva. O caminho talvez esteja menos na rivalidade e mais na honestidade de quem vive, transita e enxerga o Brasil por múltiplas lentes.

Fonte: Post publicado no X por Eduardo Pedrosa em 31 de dezembro de 2025. As opiniões expressas são de responsabilidade de seus autores.

 

Autor

Horas
Minutos
Segundos
Estamos ao vivo