Por Dedé Roriz
Após dois mandatos no Palácio do Buriti, governador deixa o cargo no fim de março e abre espaço para Celina Leão liderar a continuidade do grupo político nas eleições de 2026
O fim do governo Ibaneis Rocha marca o encerramento de um dos ciclos políticos mais relevantes do Distrito Federal nas últimas décadas. Com a saída anunciada para o dia 28 de março, para disputar uma vaga no Senado, o governador transfere o comando do Palácio do Buriti à vice-governadora Celina Leão, que passa a ocupar o centro do projeto governista com vistas à eleição de 2026.
Mais do que uma troca formal de comando, o movimento tem peso institucional, eleitoral e simbólico. Depois de quase oito anos à frente do Governo do Distrito Federal, Ibaneis deixa uma gestão que consolidou base política, investiu fortemente em obras e programas sociais e construiu uma narrativa de governo popular, comparada por aliados ao estilo de administração que marcou a era Joaquim Roriz.
Da desconfiança inicial à vitória expressiva
Quando lançou sua candidatura ao GDF em 2018, Ibaneis era visto com ceticismo por grande parte do meio político. Advogado, ex-presidente da OAB-DF e sem trajetória eleitoral consolidada, aparecia como um nome fora do padrão tradicional das disputas locais.
Naquele momento, sua candidatura parecia improvável diante de lideranças já estabelecidas. No entanto, o cenário de desgaste do governo Rodrigo Rollemberg e o ambiente de insatisfação do eleitorado abriram espaço para um perfil outsider, capaz de captar o sentimento de mudança.
O resultado foi expressivo. Ibaneis avançou ao segundo turno em primeiro lugar e, na etapa final da disputa, venceu com larga vantagem, consolidando-se como fenômeno eleitoral naquele pleito. Sua eleição representou uma ruptura com a lógica tradicional da política local e inaugurou um novo arranjo de poder no DF.
O aprendizado político e a montagem de uma base de governabilidade
O início do mandato foi marcado por um perfil mais técnico e burocrático. Ao longo do primeiro ano, porém, ficou evidente que a estabilidade administrativa dependeria de algo além da estrutura formal do Executivo: seria necessário construir base política, dialogar com partidos e fortalecer pontes com a Câmara Legislativa.
Esse entendimento foi decisivo para a consolidação do governo. Ibaneis percebeu que governabilidade, no Distrito Federal, passa necessariamente pela articulação política. A partir daí, sua gestão ganhou musculatura institucional e passou a operar com mais eficiência tanto no campo legislativo quanto na execução administrativa.
Esse amadurecimento político ajudou a transformar um governo que começou de forma cautelosa em uma gestão com maior capacidade de entrega e forte presença territorial.
O modelo de governo: obras, presença popular e agenda social
Um dos traços mais evidentes da gestão Ibaneis foi a aposta em obras públicas como marca administrativa. A estratégia remete diretamente a um modelo conhecido da política brasiliense: o governante que busca legitimidade por meio de entregas visíveis, expansão da infraestrutura e presença constante nas regiões administrativas.
Ao lado desse eixo, a área social também ganhou protagonismo. A redução do valor da refeição no restaurante comunitário de R$ 3 para R$ 1, além da implantação de café da manhã e jantar em parte da rede, ajudou a reforçar a imagem de um governo voltado às camadas mais vulneráveis. A ampliação dos restaurantes comunitários também entrou nesse pacote de ações com forte apelo popular.
Essa combinação entre obras e políticas assistenciais produziu dividendos políticos importantes. Em 2022, Ibaneis foi reeleito ainda no primeiro turno, feito inédito entre governadores do DF que disputaram reeleição. O resultado confirmou não apenas a força da máquina administrativa, mas também a eficácia de uma estratégia voltada para presença concreta no cotidiano da população.
Comunicação como ativo político
Outro fator importante na consolidação do legado de Ibaneis foi a comunicação institucional. O governo conseguiu transformar realizações administrativas em narrativa política, reforçando a percepção de entrega, eficiência e continuidade.
A força do slogan “Governo faz, Governo fez” sintetiza essa lógica. Não se trata apenas de publicidade oficial, mas de uma tentativa clara de associar a gestão a um modelo de ação permanente, com forte apelo popular e memória visual para o eleitorado. No DF, esse tipo de comunicação sempre teve peso relevante, especialmente em governos que apostam na ocupação simbólica do espaço público por meio de obras e programas.
Crises, resistência política e reorganização do grupo
Nem todo o ciclo foi de estabilidade. O governo enfrentou momentos de forte turbulência, sobretudo após os episódios de janeiro de 2023, quando Ibaneis foi afastado temporariamente do cargo por decisão do ministro Alexandre de Moraes no contexto das investigações sobre os atos antidemocráticos.
Naquele momento, Celina Leão assumiu o comando do GDF e teve atuação decisiva para preservar a coesão política do grupo. Sua postura de lealdade e continuidade administrativa fortaleceu sua posição dentro da base governista e ajudou a consolidá-la como herdeira natural do projeto político hoje instalado no Buriti.
O retorno de Ibaneis ao cargo marcou uma recuperação relevante. Mesmo em meio ao desgaste nacional do episódio, ele retomou protagonismo, reorganizou a base e voltou a figurar como um dos nomes centrais do tabuleiro eleitoral de 2026.
O peso dos escândalos e os desafios da sucessão
Na reta final da gestão, no entanto, o cenário ficou mais complexo. Casos que envolveram o BRB e o episódio conhecido politicamente como “caso Master” passaram a ocupar espaço relevante no debate público e deram à oposição munição para tentar desgastar o grupo governista.
Ainda assim, o impacto eleitoral desses episódios dependerá de dois fatores centrais: o avanço concreto das investigações e a capacidade da oposição de transformar denúncia em narrativa política competitiva. Até aqui, o campo adversário não demonstrou a mesma força de organização e capilaridade que o grupo de Ibaneis construiu ao longo dos últimos anos.
Além disso, a possível presença de José Roberto Arruda no cenário eleitoral adiciona um componente de imprevisibilidade. Sua situação jurídica e eventual viabilidade política podem influenciar diretamente o comportamento do eleitor conservador e do eleitorado tradicional de direita no DF.
O legado e a tentativa de transferência de votos
Do ponto de vista político, o principal ativo que Ibaneis tentará carregar para a disputa ao Senado é justamente seu legado administrativo. O cálculo do grupo é claro: transformar avaliação de governo em voto pessoal para o Senado e, ao mesmo tempo, transferir parte desse capital para Celina Leão na disputa pelo Buriti.
Esse é o grande teste de 2026. O governador sai com uma marca de gestão associada a obras, programas sociais, capilaridade política e forte presença institucional. Mas eleição majoritária não depende apenas de legado. Depende também de contexto, alianças, ambiente nacional e capacidade de o eleitor separar governo bem avaliado de escândalos recentes.
No caso de Celina, a missão será dupla: manter a identidade do grupo sem parecer mera continuidade automática. Já no caso de Ibaneis, a tarefa será convencer o eleitor de que sua passagem pelo GDF o credencia a ocupar espaço no Congresso Nacional como representante de Brasília.
Encerramento estratégico
Ibaneis Rocha deixa o Governo do Distrito Federal como um personagem incontornável da política local. Sai maior do que entrou, com um governo de marcas visíveis, uma base consolidada e um grupo político organizado para a sucessão. Seu legado deverá permanecer no debate público, seja pelo volume de entregas, pela força de sua articulação ou pela tentativa de reposicionar o campo governista para os próximos anos.
A resposta definitiva sobre o tamanho desse legado, no entanto, virá das urnas. Se conseguir eleger-se senador e ajudar a conduzir Celina Leão ao segundo turno — ou à vitória —, Ibaneis terá confirmado que encerrou o mandato não apenas como gestor bem-posicionado, mas como líder capaz de transformar governo em projeto duradouro de poder no Distrito Federal.