PL-DF: prioridade no Senado, risco estrutural e uma aposta que pode custar caro
O Partido Liberal nacional está tratando o Distrito Federal como peça estratégica no tabuleiro de 2026. Mas o movimento que parecia simples — priorizar o Senado — virou um cálculo delicado que envolve vaidade, matemática eleitoral e dinheiro pesado.
Primeiro ponto: o PL não está desafiando Celina Leão. Não há ruptura formal. O que há é prioridade. O foco da legenda no DF é claro: as duas vagas ao Senado.
A lógica é nacional. Senado significa protagonismo institucional, palanque permanente e influência direta no projeto presidencial que hoje passa pelo crescimento de Flávio Bolsonaro no cenário nacional.
Mas o problema começa quando a prioridade esbarra na conta bancária.
Fundo eleitoral não é elástico
O PL tem uma das maiores fatias do fundo eleitoral do país. Ainda assim, o dinheiro precisa ser distribuído em todos os estados, nas campanhas proporcionais e na engrenagem presidencial.
Bancar duas campanhas majoritárias ao Senado no DF exige investimento alto. Muito alto.
A pergunta incômoda é: de onde sai esse recurso?
Se Brasília puxar demais, alguém em outro estado perde. Se o investimento for concentrado no Senado, a nominata federal do DF pode ficar menos competitiva.
E é aí que entra o ponto que poucos falam publicamente.
Mulher forte na nominata não é detalhe, é coeficiente
No sistema proporcional, voto feminino tem peso estratégico na engenharia da chapa.
Mulheres competitivas ajudam na distribuição de recursos, cumprem exigências legais e fortalecem o coeficiente partidário. Em termos práticos: ampliam a chance de mais cadeiras.
Tirar uma mulher forte da nominata federal para colocá-la numa disputa majoritária não é apenas mudança de plano — é mexer na matemática da bancada.
Bancada menor significa menos fundo partidário no ciclo seguinte. E menos fundo significa menos poder.
O fator Michelle e o risco Bia
Nos bastidores, os números indicam que Michelle Bolsonaro, se disputar o Senado, largaria competitiva.
Já Bia Kicis decidiu ir para a majoritária, mas enfrenta um cenário mais complexo.
Sebastião Coelho tende a disputar o mesmo eleitorado ideológico e pode dividir a base conservadora.
Enquanto isso:
Erika Kokay mantém eleitorado consolidado à esquerda.
Leila do Vôlei tem recall alto e trânsito em diferentes nichos.
O risco concreto é Bia não chegar ao Senado e o PL perder uma cadeira federal praticamente garantida na Câmara.
Perder cadeira no DF não é só perder um mandato. É reduzir bancada nacional. É reduzir peso político. É reduzir fundo futuro.
Isolamento ou estratégia?
Outro ponto sensível é a possibilidade de o PL sair sem coligação formal no DF.
Não é enfrentamento com Celina. É independência estratégica.
Mas independência custa caro quando a disputa é majoritária.
Sem alianças amplas, a campanha precisa ser mais robusta financeiramente. E isso volta ao mesmo problema: fundo.
A encruzilhada real
O PL no DF está entre dois caminhos claros:
Consolidar 2 ou 3 deputados federais, manter estrutura, garantir fluxo de recursos e fortalecer o projeto presidencial com base sólida.
Ou apostar pesado em duas cadeiras ao Senado, concentrar recursos, enfrentar uma disputa fragmentada e correr o risco de sair menor do que entrou.
É uma decisão menos ideológica e mais contábil.
Em 2026, Brasília não será apenas palco político. Será laboratório financeiro da direita nacional.
E quando a política começa a ser decidida na planilha, quem erra a fórmula paga a conta por quatro anos.