O verdadeiro gargalo da saúde pública no Distrito Federal não está na porta dos hospitais

 

Especialistas defendem que a crise começa antes da emergência e apontam a falta de médicos especialistas na atenção primária como um dos principais entraves do sistema

Quando a população pensa na crise da saúde pública do Distrito Federal, a primeira imagem costuma ser a de hospitais lotados, pacientes em macas nos corredores e longas esperas nas emergências. Mas, segundo o médico Dr. Wendel Moreira, esse é apenas o reflexo de um problema muito maior que começa bem antes da porta dos hospitais.

Durante entrevista ao podcast Rádio Corredor, o médico, que atuou como superintendente de regiões de saúde do Distrito Federal e possui experiência na gestão da rede pública, afirmou que o maior gargalo da saúde está na dificuldade de acesso aos médicos especialistas ainda na atenção básica.

O paciente entra em uma fila para entrar em outra fila

Segundo Wendel Moreira, o modelo atual cria um caminho burocrático que prolonga o sofrimento dos pacientes.

Ele cita como exemplo uma pessoa diagnosticada com pedra na vesícula. Após passar pelo médico da Unidade Básica de Saúde (UBS), o paciente é encaminhado para uma consulta com um cirurgião. O problema é que essa primeira espera pode levar anos.

“Hoje o paciente entra em uma fila para conseguir uma consulta com o especialista. Só depois dessa consulta é que ele será colocado na fila da cirurgia.”

Na prática, muitas pessoas passam dois ou três anos aguardando apenas a avaliação do especialista, sem sequer terem previsão para o procedimento definitivo.

Especialistas mais próximos da população

Na avaliação do médico, parte desse problema poderia ser reduzida se especialistas como pediatras, ginecologistas, obstetras e cirurgiões tivessem atuação mais próxima das UBS.

A proposta não seria substituir o médico de família, mas complementar sua atuação.

Com esse modelo, o especialista poderia confirmar diagnósticos, solicitar exames específicos, realizar o preparo pré-operatório e encaminhar o paciente diretamente para a cirurgia quando necessário, reduzindo etapas e diminuindo significativamente o tempo de espera.

A valorização financeira cria um desequilíbrio

Outro ponto levantado pelo médico envolve a política remuneratória da Secretaria de Saúde.

Segundo ele, atualmente determinadas gratificações tornam financeiramente mais atrativo trabalhar na Estratégia Saúde da Família do que atuar em hospitais e emergências.

Na avaliação de Wendel Moreira, essa diferença acaba dificultando a atração de especialistas para áreas consideradas estratégicas da rede pública.

Ele defende uma revisão da política de incentivos para equilibrar a distribuição dos profissionais entre a atenção básica e os hospitais.

Formação médica também preocupa

O médico também demonstrou preocupação com a redução da capacidade de formação de novos especialistas.

Segundo ele, a falta de valorização dos médicos preceptores — responsáveis por orientar os residentes — tem desestimulado profissionais experientes a permanecerem na formação das novas gerações.

Como consequência, programas de residência médica acabam reduzindo vagas justamente em um momento em que o Distrito Federal necessita ampliar o número de especialistas.

A emergência virou a porta de entrada

Para Wendel Moreira, outro efeito dessa estrutura é a sobrecarga das emergências.

Sem conseguir consultas rápidas nas UBS ou acesso aos especialistas, muitos pacientes acabam procurando diretamente os hospitais, inclusive para problemas que poderiam ser resolvidos antes.

Isso aumenta o tempo de espera, congestiona os prontos-socorros e dificulta o atendimento dos casos realmente graves.

Um debate que vai além da construção de hospitais

A discussão proposta pelo médico chama atenção para um aspecto pouco debatido nas campanhas eleitorais.

Construir hospitais ou ampliar leitos é importante, mas não resolve sozinho o problema da saúde pública.

Se o acesso ao especialista continuar demorando meses ou até anos, o sistema permanecerá congestionado, independentemente do número de hospitais disponíveis.

A entrevista reforça uma visão defendida por diversos especialistas em gestão pública: fortalecer a atenção primária, reorganizar o acesso às especialidades e investir na formação de médicos pode produzir impactos muito maiores do que concentrar esforços apenas na expansão da rede hospitalar.

A saúde como tema central das eleições

Com a aproximação das eleições de 2026, a saúde deve ocupar novamente espaço entre os principais temas da campanha no Distrito Federal.

Mais do que promessas de novos hospitais, o desafio será apresentar soluções capazes de reduzir filas, melhorar o acesso aos especialistas e tornar o atendimento mais rápido e eficiente para quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS).

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